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Vivian

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Morangos que falam Full Post View | List View

Morangos não foram criados para falar. Isso é quase uma heresia.

Uma casa não engraçada
Uma casa não engraçada magnify

Era uma vez uma casa. Jardim amplo e paredes pintadas. Sob a tinta fina havia uma parede trincada e com infiltrações, mas isso não cabe nessa história.

Nessa casa moravam vários amigos. Alguém de outra vizinhança os chamava de sentimentos. Eles viviam alegres e corriam livres pelo jardim.

Embora não ultrapassassem os limites da casa, um dia um grande muro foi erguido em volta do gramado. O muro fazia sombras frias sobre eles durante quase todo o dia e isso os deixava um pouco mais tristes.

Ver aquele muro não era muito legal.

Dia após dia, os sentimentos foram entrando na casa. Passavam muito tempo nela, pois era quentinha e aconchegante. Eles também não precisavam ficar olhando o muro quando estavam na casa, e assim esqueciam que ele existia.

Um dia, contudo, quando estavam todos lá dentro, alguém fechou as portas. Não apenas encostou, mas passou a chave. Eles estremeceram lá dentro, com certo medo, mas estavam já habituados a ficar do lado de dentro. Deixaram passar e não reclamaram mais.

Infelizmente, mais coisas começaram a mudar. A casa outrora quentinha foi esfriando e eles tremiam de frio. Seus mantimentos acabaram e eles morriam de fome. Por fim, começou a chover dentro da casa.

Alguns, irritados, brigaram entre si e não mais todos eram amigos. Alguns dias e ninguém se entendia – eram estranhos.

Certo dia, um deles, a bela garotinha de olhos verdes e redondos, triste e ensopada pela chuva interminável, quis fazer alguma coisa. Esperança pensou que abrindo a janela e deixando a luz entrar, seus amigos lembrariam de como eram felizes e de quão verde o jardim era sob o sol. Ela respirou fundo e abriu a janela.

Apenas um pântano escuro os circundava.

Tags: life, feelings, story
Monday August 13, 2007 - 09:11pm (PDT) Permanent Link | 0 Comments
4/4
4/4 magnify
4/4 é o melhor compasso. Ignorem os revolucionários musicais, as valsinhas, os sons arrastados e letárgicos do doom metal: a razão é 4/4. Tem ritmo, balanço, envolve - são todas as baladas que envolvem o dia-a-dia; 6/8 é coisa de desafeto musical.
Faço a média da minha vida por quanta música passou por mim. Tenho ouvido muito, foi um grande ano cheio de influências e novas velhas descobertas. Consumi muito e não produzi quase nada: eis a vida. Às vezes, parece que se eu doar o pouco que me resta a essas vorazes notas musicais vou esfaziar de vez e murchar como um balão. Não dá pra me entregar a mais nada, nem escrita, nem música, nem dança, nem nada. Não dá.

Vou sumir.
Tags: music, life, year
Friday December 29, 2006 - 07:04am (PST) Permanent Link | 0 Comments
Vazio
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É o oco. Esse puxão para baixo, descendo no escuro, os sons ficando rarefeitos. Por mais que os carros gritem com suas buzinas do lado de fora, por mais que haja loucura do lado de lá do rio, para mim é o oco.
Sempre fui defensora da arte do vazio, mesmo antes das teorias da aula de escultura. Tantas vezes a falta de matéria, o espaço preenchido somente de luz, todas essas e muitas mais expressões do não-ser - tantas vezes isso acaba sendo mais presente do que um olhar que atravessa o corpo e se perde no horizonte, como o foco infinito da minha digital.
Fato é que cansei desse pensamento "arte moderna", quero mais os jardins impressionistas do Monet, a nobreza do Velázquez, as flores do Haas. Concreto, cimento, pá e areia. Coisas a me apegar, sentimentos além da ilusão, além da luz tênue dançando entre nós. Quero cor, movimento, loucura Van Goghiana, massa de tinta jogada sem dó.
Contudo, ainda estou aprisionada na falta. Por mais que force a vista através desse caleidoscópio, só enxergo o oco.
Oco como a própria palavra e seu som que se acaba na boca com um gosto amargo.
Thursday September 28, 2006 - 08:55pm (PDT) Permanent Link | 0 Comments
Shibari
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Amarrada aos formatos, padrões, destino, seguranças que não nos deixam viver.

Um pouco longe da alma, tanto que nem sinto mais dor. As lágrimas de hoje são os pássaros do amanhã, sempre migrando para o sul. Olhos que não dizem nada sobre o passado e que são míopes para o futuro.

Essas algemas libertam. Chocam. Mudam.

Com certeza são meu passaporte para voar com Rae, porque é seu aniversário.

Podem os quilômetros do tempo nos separar dos nossos fantasmas?

Wednesday August 23, 2006 - 06:05pm (PDT) Permanent Link | 0 Comments
Efeito ilha
Efeito ilha magnify
Estou bastante impressionada com a quantidade de reclamações dos meus amigos, conhecidos, vizinhos e passantes sobre uma coisa estranha, uma tal de "privacidade". Quando o primeiro veio me falar disso, eu olhei de soslaio, como em cena de filme, aquela tensão entre nós. Considerei-o insano.
Claro, foi fácil assim só no princípio, porque dessa época até o ômega em que nos encontramos aconteceu o verdadeiro apocalipse verbal, a palavrinha tomou a boca do povo e até quem eu menos esperava me surpreendeu apagando loucamente scraps no orkut.
Considero a todos insanos, mas um certo livro me diz que a insana pode ser eu.
A questão é que eu não sei onde mora essa tal de privacidade, se a vida só existe por compartilhamento. Se eu fecho as portas e janelas do meu quarto, eu sozinha dentro, o máximo que posso fazer é dormir. A partir do momento que eu falo com aquele melhor amigo no telefone, pronto! um pouco do que é mais individual em mim (voz, entonação, sentimentos, idéias) já é nosso - a barreira do individualismo foi quebrada.
Ser humano é software livre, para todo mundo fuçar, opinar, mexer e irmos melhorando através dos dias. Quando nos trancamos em nossa cela particular, viramos Windows: cheio de bugs. Desde a era remota a comadre da rua falava do seu namorado novo (ou velho), a mamãe lia seu diário quando você ia pra escola e assim tudo contribuía não para mudarmos nossos hábitos, mas para aprendermos a lidar com a opinião alheia. Ninguém então tinha síndrome de ilha - não me toque! apenas a internet ampliou sua vizinhança, em vez de uma tia, você tem um milhão.
A essência é a mesma. As vantagens são ampliadas. Por que tanta luta para se proteger das trocas que até hoje foram tão naturais?
Alguém por favor traga minha camisa de força.
Saturday June 24, 2006 - 11:24pm (PDT) Permanent Link | 0 Comments

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