So little time... Try to understand that I m trying to make a move just to stay in the game.--> Click here
Morangos não foram criados para falar. Isso é quase uma heresia.
Era uma vez uma casa. Jardim amplo e paredes pintadas. Sob a tinta fina havia uma parede trincada e com infiltrações, mas isso não cabe nessa história.
Nessa casa moravam vários amigos. Alguém de outra vizinhança os chamava de sentimentos. Eles viviam alegres e corriam livres pelo jardim.
Embora não ultrapassassem os limites da casa, um dia um grande muro foi erguido em volta do gramado. O muro fazia sombras frias sobre eles durante quase todo o dia e isso os deixava um pouco mais tristes.
Ver aquele muro não era muito legal.
Dia após dia, os sentimentos foram entrando na casa. Passavam muito tempo nela, pois era quentinha e aconchegante. Eles também não precisavam ficar olhando o muro quando estavam na casa, e assim esqueciam que ele existia.
Um dia, contudo, quando estavam todos lá dentro, alguém fechou as portas. Não apenas encostou, mas passou a chave. Eles estremeceram lá dentro, com certo medo, mas estavam já habituados a ficar do lado de dentro. Deixaram passar e não reclamaram mais.
Infelizmente, mais coisas começaram a mudar. A casa outrora quentinha foi esfriando e eles tremiam de frio. Seus mantimentos acabaram e eles morriam de fome. Por fim, começou a chover dentro da casa.
Alguns, irritados, brigaram entre si e não mais todos eram amigos. Alguns dias e ninguém se entendia – eram estranhos.
Certo dia, um deles, a bela garotinha de olhos verdes e redondos, triste e ensopada pela chuva interminável, quis fazer alguma coisa. Esperança pensou que abrindo a janela e deixando a luz entrar, seus amigos lembrariam de como eram felizes e de quão verde o jardim era sob o sol. Ela respirou fundo e abriu a janela.
Apenas um pântano escuro os circundava.
Amarrada aos formatos, padrões, destino, seguranças que não nos deixam viver.
Um pouco longe da alma, tanto que nem sinto mais dor. As lágrimas de hoje são os pássaros do amanhã, sempre migrando para o sul. Olhos que não dizem nada sobre o passado e que são míopes para o futuro.
Essas algemas libertam. Chocam. Mudam.
Com certeza são meu passaporte para voar com Rae, porque é seu aniversário.
Podem os quilômetros do tempo nos separar dos nossos fantasmas?